Por Pauline Machado
Setembro é o mês da valorização da vida — são 30 dias dedicados à escuta, ao acolhimento e à conscientização sobre saúde mental. Nesse contexto, a relação entre humanos e animais ganha um papel ainda mais significativo.
Estudos mostram que o convívio com cães, gatos e outros pets pode reduzir o estresse, alivia sintomas de ansiedade e depressão, e até auxiliar em tratamentos terapêuticos. Mas, mais do que ciência, é afeto: os animais nos ensinam presença, rotina e amor incondicional — valores essenciais para quem busca equilíbrio emocional.
A campanha do Setembro Amarelo também nos convida a olhar para os laços que nos sustentam. E, em muitas famílias, esse laço tem focinho, patas e pelos. O vínculo com os animais ajuda a reconectar pessoas com a alegria das pequenas coisas, devolve propósito e companhia nos momentos de solidão, e desperta o cuidado mútuo. Falar sobre o papel dos animais na saúde emocional dos seres humanos é falar sobre esperança e sobre o poder silencioso do amor entre espécies.
Para conversar conosco sobre este tema, convidamos a psicóloga Irene Prestes. Ela é psicanalista, pós-graduada em Psicologia do vínculo homem-animal, especialista na Clínica Família Multiespécie: vínculo humano não humano, coordenadora do grupo operativo de saúde mental PsiVet Conecta e fundadora do Projeto Bicho Gente.
A entrevista está imperdível! Acompanhe ao final da leitura, compartilhe com amigos e familiares.
Pet Med - Relação emocional – De que forma a convivência com cães e gatos pode contribuir para a saúde mental e para a prevenção do suicídio?
Irene Prestes - O vínculo afetivo com cães e gatos contribui como fator de proteção para a saúde mental dos humanos. O vínculo afetivo com cães e gatos pode ser uma importante referência de investimento libidinal – ou seja, uma direção para a energia psíquica vital, que dá sentido à vida saudável do sujeito. A relação com um animal de estimação pode funcionar como um “objeto transicional” para a pessoa, ajudando na socialização, no foco ao cuidado, na elaboração de angústias e no manejo de sentimentos de vazio. Para indivíduo em risco de suicídio, a convivência com animal pode ser considerada como fator de risco ou de proteção; como fator de proteção a convivência com o animal denota vínculo afetivo vital e pode funcionar como uma espécie de ponto de ancoragem do desejo, oferecendo uma relação de reconhecimento e pertencimento individual e coletivo, que contribui para restaurar o sentido de existir e para manter o sujeito em relação com o mundo e com o outro. Já como fator de risco, a convivência não apresenta laço afetivo de ancoragem ou ainda não apresenta uma relação de cuidado; podendo a interação ser pouca amistosa entre a pessoa e o cão ou gato.
Pet Med - Redução do estresse – Quais evidências científicas mostram que o contato com animais diminui ansiedade, depressão e sensação de solidão?
Irene Prestes - Entendendo que o psíquico e o somático são indissociáveis e, estão imersos num campo de representação simbólica e que sintomas psíquicos como ansiedade, depressão e solidão se expressam no corpo. E, que uma das fontes de satisfação ao sujeito psíquico pode ser destacada pela via da sublimação, que é a transformação de impulsos internos em atividades que promovem satisfação socialmente aceita. Evidencia-se que a convivência familiar com animais quando denota vínculos afetivos estáveis e atividades produtivas que dão sentido à vida e ao bem-estar, minimizam os efeitos dos fatores do estresse, contribuindo na redução do estresse negativo. Essa convivência familiar com cães e gatos possibilita um espaço de transferência afetiva amorosa, onde o sujeito pode projetar, simbolizar e metabolizar suas emoções. Finalmente, estudos científicos contemporâneos, alinhados a essa leitura, mostram redução do cortisol (hormônio do estresse) e aumento da ocitocina (hormônio relacionado ao vínculo e bem-estar) durante a interação com cães e gatos. Esses efeitos têm impacto psíquico: ajudam a diminuir a excitação pulsional em excesso (angústia) e facilitam a vivência de prazer e de calma.
Pet Med - Como a necessidade de cuidar de um animal estimula hábitos positivos, como caminhadas e horários regulares?
Irene Prestes - Sabemos que a saúde psíquica depende de uma boa economia libidinal e de uma capacidade de investimento no mundo externo. Adotar um animal significa tomar para si a responsabilidade e o compromisso com bem-estar do animal. Desta forma, a necessidade de cuidar de um animal de estimação estimula hábitos positivos e saudáveis para a pessoa, organiza o dia a dia dos familiares e preserva o bem-estar do animal. O vínculo de apego seguro entre eles funciona como uma estrutura simbólica que dá contorno ao tempo e ao espaço psíquico. A rotina diária no estabelecimento de horários para alimentar, limpar e higienizar, passear e brincar com o pet promove regularidade e cria um espaço potencial facilitador e de confiança para ambos e, orienta o sujeito para o cuidado de si ao cuidar do outro. O ato de caminhar e brincar com seu pet favorece a descarga de tensões psíquicas, o que denominamos alívio pulsional e estimula a rotina saudável e, a retomada de atividades prazerosas – algo essencial para a manutenção do equilíbrio psíquico. Último ponto, um ambiente de cuidado como indivíduos saudáveis promove a participação de todos, humanos e não humanos. O cuidar da relação eu-outro, está na origem do desenvolvimento da capacidade para o senso ético do ser humano.
Pet Med - Em momentos de tristeza profunda, qual o papel do animal de estimação como fonte de conforto e motivação?
Irene Prestes - Na perspectiva freudiana, a tristeza profunda pode ser compreendida como expressão de um trabalho de luto ligado à perda, nos seus diferentes tipos: normativas, materiais, relacionais, identitárias, reais ou simbólicas. O animal de estimação, nesse contexto, pode funcionar como um apoio de investimento libidinal. Diante de uma perda, a libido precisa encontrar novos destinos para não ficar fixada no objeto perdido. O pet oferece uma possibilidade de deslocamento afetivo, permitindo ao sujeito redirecionar sua energia psíquica para uma relação viva e ativa, responsiva e não julgadora, de amor e trabalho. Isso pode funcionar como suporte do EU em momentos de fragilidade, tristeza profunda oferecendo motivação para manter cuidados cotidianos e um vínculo estável e saudável.
Pet Med - O que são terapias assistidas por animais e como elas auxiliam no tratamento de transtornos emocionais?
Irene Prestes - As terapias assistidas por animais podem ser compreendidas como uma modalidade de intervenção em que o vínculo de apego seguro com o animal é mobilizado para facilitar processos emocionais humanos. Como estratégia de intervenção, as terapias assistidas utilizam a interação com animais como estímulos ambientais capazes de evocar, modelar e reforçar comportamentos adaptativos. Ainda, as terapias assistidas por animais podem ser entendidas, como uma oportunidade de criar um espaço potencial facilitador: uma área intermediária entre a realidade interna e externa. O animal ocupa o lugar de mediador transferencial: ele possibilita a emergência de conteúdos inconscientes, funcionando como um terceiro que suaviza resistências e amplia a possibilidade de simbolização. Por não estar implicado na linguagem verbal ou em julgamentos sociais, o animal de forma espontânea, facilita que a expressão emocional reprimida encontre vias de manifestação menos ameaçadoras. Assim, ele auxilia na redução de defesas rígidas, na redução de angústias, na elaboração de conflitos internos e na restauração parcial da economia libidinal comprometida em transtornos emocionais. Essa interação assistida contribui para o amadurecimento emocional e para a reorganização de áreas fragilizadas do EU e potencializa habilidades de brincar e da criatividade.
Pet Med - Quais benefícios específicos a interação com pets traz para pessoas da terceira idade, especialmente em prevenção de depressão?
Irene Prestes - Na velhice, muitas vezes o sujeito se depara com perdas sucessivas: do corpo, do projeto de vida, de papéis sociais, de pessoas significativas. Na perspectiva de psicanálise freudiana o envelhecer aponta para o desafio da incompletude e da finitude. A interação com o animal, nesse cenário, funciona como um espaço potencial de apego onde a experiência revitaliza a circulação libidinal. O pet assume a função de continente afetivo, oferecendo um ambiente acolhedor e emocionalmente sustentador. Cuidar do pet exige dedicação, estimula o sentimento de utilidade o que convoca o idoso a permanecer em relação com o mundo externo, diminuindo o risco de retraimento narcísico. Além disso, o vínculo afetivo oferece um campo de identificação e companhia, amenizando sentimentos de solidão e vazio. Nesse sentido, o animal atua como fator de proteção contra a melancolia, sustentando o investimento na vida e reforçando o laço social. Ajuda a preservar o contato como o verdadeiro EU, prevenindo o declínio funcional, o retraimento, a desesperança e os estados depressivos. Nesse momento, como ao longo de todo o desenvolvimento humano, as relações com o outro seguem sendo uma fonte fundamental de investimento, sustentação e organização do equilíbrio da vida.
Pet Med - Como a presença de um animal de estimação pode ajudar na autoestima e na construção de habilidades socioemocionais das crianças e dos adolescentes?
Irene Prestes - A infância e adolescência são fases importantes do processo de constituição do sujeito, marcadas por experiências relacionais de sentidos e significados fundamentais ao bem-estar e saúde mental. Muitas crianças e adolescentes sentem-se sós e impotentes diante do mundo adulto, inseguros quanto as transformações que vivem dentro de si, dada a imaturidade psíquica. As manifestações crescentes de intolerância e violência vividas por crianças e adolescentes revelam situações em que a família, a escola e a sociedade fracassam em cumprir seu papel primordial de acolher, cuidar e socializar seus novos membros.
A presença de um animal de estimação pode auxiliar nesse processo de várias formas:
-Sustentação da autoestima: ao cuidar do pet, a criança ou adolescente vivencia um papel ativo de responsabilidade e reconhecimento. Esse “ser necessário”, “ser importante” alimenta o sentimento de pertencimento e valor pessoal, reforçando o EU e funcionando como apoio ao sentimento de impotência ou desvalia.
-Habilidades socioemocionais: a relação com o animal funciona como um dispositivo relacional, possibilita a experiência de empatia e acolhimento responsável, já que o sujeito precisa reconhecer os sinais e os interesses particulares de um ser diferente de si. Isso amplia a capacidade de perceber o outro, de regular afetos e de lidar com frustrações, fundamentais para o convívio social.
-Espaço de simbolização e elaboração psíquica: para a criança, o pet pode assumir função semelhante à de um “ambiente suficientemente bom”, permitindo a expressão de afetos, medos e fantasias de forma mais acessível e menos ameaçadora. Para o adolescente, em meio às crises de identidade e separação, o animal pode oferecer um vínculo estável, funcionando como continente para angústias e como suporte de pertencimento.
Assim, a convivência com animais de estimação pode ser compreendida como fator de proteção, um vínculo que protege contra a somatização, fortalecendo a autoestima e enriquecendo o repertório socioemocional, ao oferecer ao sujeito em desenvolvimento uma forma concreta e simbólica de elaborar suas vivências emocionais.
Pet Med - De que maneira o compromisso diário com o animal fortalece o senso de propósito e pertencimento?
Irene Prestes - Entendendo que o sujeito humano se constitui a partir da relação com o outro, mediado por vínculos afetivos e pela necessidade de dar sentido à vida diante das tensões internas e externas. O compromisso diário com um animal pode ser compreendido como um deslocamento da libido investida em relações humanas, permitindo que o sujeito encontre uma forma de sublimar sua energia psíquica por meio do cuidado, da rotina, da responsabilidade e senso de propósito. Cuidar do animal reforça a autoestima e confirma a capacidade do sujeito de ser responsável pelo outro. Esse laço cotidiano também fortalece o sentimento e a rede de pertencimento, pois organiza o sujeito em uma rede de significações que o inclui na vida social – ele se reconhece como parte de uma família, de uma comunidade multiespécie.
Pet Med - Adotar ou passear com um pet pode ampliar a rede de apoio social. Como isso impacta o bem-estar mental?
Irene Prestes - A ausência de trocas afetivas pode favorecer o acúmulo de tensões internas, levando à somatização. Em contrapartida, quando os vínculos afetivos interespécie se desenvolvem em um ambiente facilitador, eles fortalecem o bem-estar e ampliam a rede de apoio social. Na perspectiva psicanalítica, adotar um animal não é apenas um ato prático, mas a expressão do desejo de estabelecer laços de afinidade e de reconhecer o animal em sua singularidade. À luz de Freud, esse investimento afetivo pode ser compreendido como deslocamento pulsional que enriquece as conexões soais e a comunidade. Já em Winnicott, a convivência com o pet possibilita experiências de cuidado, jogo e espontaneidade, fundamentais para a saúde emocional. Assim, todo o animal independentemente de sua origem – com pedigree ou sem pedigree, comprado, doado, achado, presenteado ou resgatado – precisa ser, em ato adotado subjetivamente por seu familiar responsável, no reconhecimento e pertencimento mútuo que sustenta a relação interespécie. Assim, o pet não apenas oferece companhia, mas também se torna em elo de ligação entre sujeito e comunidade, funcionando como fator de proteção à saúde mental e ao bem-estar, já que a integração social diminui riscos de isolamento, depressão e adoecimento psicossomático.
Pet Med - Que sinais de alerta de sofrimento emocional podem ser percebidos por quem convive com animais e como buscar ajuda?
Irene Prestes - Na perspectiva winnicottiana, o animal pode atuar como mediador afetivo, percebendo mudanças sutis no estado emocional dos familiares. Alguns sinais de dor e sofrimento que podem ser percebidos incluem:
-Retraimento social ou isolamento crescente;
-Alterações marcantes de humor, irritabilidade ou apatia;
-Descuido com a própria rotina, higiene ou alimentação;
-Dificuldade em se conectar afetivamente, inclusive com o animal.
Quando esses sinais aparecem é fundamental que o familiar responsável busque apoio externo, mantendo um ambiente saudável para si mesmo: conversar com familiares, amigos ou profissionais de saúde mental. O animal pode ajudar nesse processo como facilitador de vínculos, mas não substitui a intervenção profissional.
Pet Med - Como orientar os familiares para lidarem com o luto quando o animal envelhece ou parte, mantendo equilíbrio emocional?
Irene Prestes - O luto decorrente da perda de um ente querido envolve o processo de separação e elaboração do EU. O enlutado deve ser acolhido a resgatar o senso de segurança, a reconhecer o animal como sujeito não humano que fez parte da sua vida. No luto: qualquer pista do seu pet (a coleira, um som, uma foto) pode acionar o alarme emocional e trazer a tristeza, a saudade, a raiva, o choro ou um nó na garganta antes mesmo de a pessoa “pensar sobre isso”. “O amor é a fonte de prazer mais profunda da vida, ao passo que a perda daquele que amamos é a mais profunda fonte de dor; amor e perda são duas faces da mesma moeda” (Parkes, 2009).
Estratégias que podem ajudar o enlutado:
-Validar e nomear os sentimentos;
-Criar rituais simbólicos de despedida (Álbuns, fotos do pet);
-Manter uma rede de apoio afetivo (familiares, amigos, grupos de convivência);
-Preservar atividades cotidianas e interesses próprios, garantindo continuidade do cuidado de si mesmo.
A ideia central é que os familiares encontrem equilíbrio entre vínculo e autonomia, permitindo que o luto seja vivido como um processo natural de transição, fortalecendo o EU e evitando retraimentos emocionais prejudiciais.
Pet Med – Que recado você deixaria para reforçar que a companhia de um animal não substitui tratamento, mas pode ser um forte aliado na prevenção do suicídio?
Irene Prestes - A companhia de um animal é potencialmente saudável a todas as pessoas, em qualquer idade, onde o cuidar implica colocar-se ao lado do sujeito, e, educar, para acompanhá-lo no caminho que promove seu desenvolvimento. A presença do cão ou gato pode ser compreendida, como a recuperação do sentido de alteridade, do estar-com, demanda afetiva e ética do ser humano.
Pet Med - Por fim, se achar necessário, use o espaço abaixo para complementar a sua participação acrescentando outras informações que entenda como importantes e não tenham sido abordadas durante a entrevista.
Irene Prestes - Freud ao refletir sobre a complexa questão do cuidado é conservação do amor, indica que é justamente nesse ponto que o amor ao animal nos oferece importantes ensinamentos: fidelidade, constância e retribuição. Ao contrário, da convivência humana que sempre desgasta e tende a se enfraquecer com o tempo, a convivência com os animais tende a ficar mais forte com o tempo.






