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Como as mudanças ambientais podem impactar a saúde e o comportamento dos pets

Como as mudanças ambientais podem impactar a saúde e o comportamento dos pets

As recentes ondas de calor registradas em diversos países da Europa chamaram a atenção para os impactos que os eventos climáticos podem causar na saúde e no bem-estar de pessoas e animais. Ao mesmo tempo, em diversas regiões do Brasil, a população enfrenta períodos de frio intenso, além de tempestades e mudanças bruscas de temperatura. Esse cenário reforça a importância de compreender como as alterações ambientais podem influenciar a saúde física e emocional dos pets, podendo envolver adaptações na rotina e no ambiente. Mais do que um motivo de preocupação, o tema abre espaço para discutir estratégias de manejo, prevenção e cuidados que ajudam a proporcionar mais conforto, segurança e qualidade de vida aos animais em diferentes condições climáticas.

 

Para conversar conosco sobre essas questões, convidamos a Médica Veterinária Comportamentalista, Cintia Pinheiro, sócia fundadora da Animalz Brasil.

 

Acompanhe a entrevista e ao final da leitura, compartilhe com seus amigos e familiares.

 

Pet Med - As recentes ondas de calor na Europa reacenderam as discussões sobre os impactos das mudanças climáticas. De que forma eventos extremos como esses podem afetar a saúde e o comportamento dos pets?

Cintia Pinheiro - De muitas formas. Eventos climáticos afetam os pets em várias camadas. Fisiologicamente, cães e gatos têm mecanismos de termorregulação muito menos eficientes que os humanos — não suam pelo corpo, dependem de ofegar e de áreas restritas de troca de calor, o que os torna muito mais vulneráveis ao calor. No campo comportamental, o desconforto térmico aumenta irritabilidade, reduz tolerância a estímulos e pode intensificar comportamentos de fuga ou de busca incessante por locais mais frescos. Em casos crônicos, o estresse térmico mantido também compromete o sistema imunológico, abrindo porta para outros problemas de saúde.

 

Pet Med - Enquanto a Europa enfrenta temperaturas recordes de calor, muitas regiões do Brasil passam por períodos de frio intenso. Os extremos climáticos, independentemente da estação, representam desafios para o bem-estar dos animais?

Cintia Pinheiro - Sim, o princípio é o mesmo: o problema não é o calor ou o frio em si, é a instabilidade e a falta de adaptação do ambiente. Animais que não têm pelagem, idade ou condição física para enfrentar frio intenso sofrem da mesma forma que os que enfrentam calor extremo. O bem-estar animal depende de previsibilidade e de um ambiente que ofereça opções de regulação — e isso vale para qualquer extremo climático, em qualquer estação.

 

Pet Med - Quais são os principais sinais de que um pet pode estar sofrendo com condições climáticas adversas, seja durante uma onda de calor, seja em períodos de frio mais rigoroso?

Cintia Pinheiro - No calor: ofegar excessivo, salivação intensa, procura insistente por chão frio ou sombra, recusa de atividade, letargia. No frio: tremores, postura encolhida, busca por contato físico ou por fontes de calor, recusa em sair para necessidades. Em ambos os casos, mudança de apetite e de padrão de sono são sinais importantes de que o animal está em desconforto sustentado, não só momentâneo.

 

Pet Med - Mudanças bruscas de temperatura e condições ambientais cada vez mais instáveis podem influenciar a imunidade e favorecer o surgimento ou agravamento de alergias e sensibilidades dermatológicas em cães e gatos?

Cintia Pinheiro - Sim. Oscilações bruscas de temperatura e umidade estressam o sistema imunológico e a barreira cutânea. Isso favorece o surgimento ou a piora de dermatites, alergias e infecções secundárias, especialmente em animais que já têm predisposição genética ou sensibilidade prévia. O estresse climático também pode atuar como gatilho para quadros que já estavam latentes.

 

Pet Med - Existem perfis de animais que merecem atenção especial diante desses cenários, como filhotes, idosos, pets com doenças crônicas ou com maior sensibilidade dermatológica?

Cintia Pinheiro - Filhotes e idosos têm termorregulação menos eficiente. Animais com doenças crônicas, como cardíacas, renais ou respiratórias, por exemplo, têm reserva fisiológica menor para lidar com estresse térmico. Braquicefálicos sofrem desproporcionalmente com calor por dificuldade respiratória. E animais com histórico de sensibilidade dermatológica ou ansiedade prévia tendem a ter respostas mais intensas a qualquer instabilidade ambiental.

 

Pet Med - Como os familiares podem adaptar a rotina e o ambiente doméstico para oferecer mais conforto e segurança aos pets em períodos de calor intenso, frio rigoroso ou oscilações climáticas frequentes?

Cintia Pinheiro - O foco deve ser dar ao animal controle sobre o próprio conforto: acesso a diferentes ambientes térmicos dentro de casa, horários de atividade ajustados, evitando exercícios em horários de pico de calor ou frio, hidratação constante e visível, e previsibilidade na rotina. Mudança não é só sobre temperatura — é sobre reduzir variáveis incertas no dia do animal.

 

Pet Med - Tempestades, ventos fortes e outras ocorrências climáticas costumam provocar medo e alterações comportamentais em muitos animais. Por que esses eventos impactam tanto os pets?

Cintia Pinheiro - Cães e gatos têm audição muito mais sensível que a nossa, e sons como trovões e fogos de artifício são imprevisíveis, intensos e não têm um "fim" identificável pelo animal — diferente, por exemplo, de um barulho doméstico recorrente. Isso ativa fortemente o sistema de resposta à ameaça, e sem possibilidade de fuga real, porque estão em casa, o estresse se acumula ao invés de se dissipar.

 

Pet Med - Quais comportamentos podem indicar que um cão ou gato está enfrentando ansiedade, estresse ou desconforto em situações de tempestades, fogos de artifício ou excesso de ruídos?

Cintia Pinheiro - Tremores, esconder-se, vocalização excessiva, busca por contato físico intenso, recusa alimentar, salivação, e em casos mais graves, tentativas de fuga ou destruição de ambiente. É importante destacar: medo é uma emoção, não um comportamento — os comportamentos são a expressão visível de um estado emocional que precisa ser reconhecido e respeitado, não simplesmente "corrigido."

 

Pet Med - Dentro de uma rotina de manejo voltada ao bem-estar animal, como recursos de apoio, como o Oto Calm e o Colete Calm Pet, podem contribuir para tornar momentos de maior sensibilidade mais tranquilos para os pets?

Cintia Pinheiro - Recursos como protetores auditivos e coletes que promovem uma sensação de acolhimento podem fazer parte de um plano de manejo, mas funcionam melhor como complemento, não, como substituto a um protocolo de manejo comportamental construído com orientação profissional. Por si só, eles *podem ajudar a reduzir a intensidade do estímulo ou a proporcionar uma sensação de segurança que pode auxiliar na autorregulação do animal, mas o ideal é que façam parte de uma estratégia mais ampla, individualizada para cada pet.

 

Pet Med - Em relação aos cuidados físicos, produtos como roupas protetoras, roupas pós-cirúrgicas e modelos com proteção UV, como as roupas protetoras da Pet Med, podem auxiliar no conforto dos animais em determinadas situações climáticas ou de sensibilidade dermatológica?

Cintia Pinheiro - Roupas com proteção térmica ou UV podem ser indicadas em casos específicos, como para animais com pelagem rala, pós tosa, recuperação cirúrgica, ou alta sensibilidade dermatológica. São indicadas quando há uma necessidade física real e diagnosticada, e o ideal é que o uso seja orientado por um profissional.

 

Pet Med - Por fim, se achar necessário, use o espaço abaixo para complementar a sua participação acrescentando outras informações que considere importantes e que não tenham sido abordadas durante a entrevista.

Cintia Pinheiro - Algo que costumo reforçar é que o bem-estar animal diante de eventos climáticos não é só sobre reagir na hora da crise, é sobre antecipar. Conhecer o histórico do seu animal, identificar sinais precoces de desconforto e ter um plano construído com antecedência faz toda a diferença entre manejo reativo e manejo preventivo.

 

Por Pauline Machado, jornalista e médica veterinária, pós-graduada em Clínica Médica de Cães e Gatos e mestranda em Ciências Veterinárias na área de Saúde Única pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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