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Saúde hepática em pets: o que todo familiar responsável precisa saber

Saúde hepática em pets: o que todo familiar responsável precisa saber

Por Pauline Machado

O fígado desempenha centenas de funções essenciais para a vida, participando do metabolismo, da digestão, da eliminação de toxinas e do armazenamento de nutrientes. Apesar de sua impressionante capacidade de regeneração, esse órgão também tem uma característica que merece atenção: muitas doenças hepáticas evoluem de forma silenciosa, sem provocar sinais evidentes nas fases iniciais. Quando os sintomas finalmente aparecem, o comprometimento pode já estar avançado, exigindo tratamentos mais complexos e reduzindo as chances de recuperação completa.

A boa notícia é que a medicina veterinária dispõe de recursos capazes de ajudar a identificar alterações hepáticas antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas. Exames preventivos, acompanhamento periódico e hábitos simples no dia a dia podem fazer toda a diferença para preservar a saúde do fígado de cães e gatos. Para esclarecer as principais dúvidas sobre prevenção, diagnóstico, fatores de risco e cuidados que ajudam a proteger esse importante órgão, conversamos com a médica veterinária Rubia Carolina Sella, especializada em Gastroenterologia de Animais de Companhia.

Acompanhe a entrevista e ao final da leitura compartilhe com amigos e familiares.

 

Pet Med - O fígado possui uma grande capacidade de regeneração. Isso significa que ele pode estar doente mesmo sem apresentar sinais aparentes?

Rubia Carolina Sella - Sim, exatamente. O fígado consegue continuar desempenhando suas funções mesmo quando uma parte significativa do seu tecido já está comprometida. Por conta dessa alta reserva funcional, a maioria das doenças hepáticas evolui de forma silenciosa e assintomática nas fases iniciais — o que permite que uma inflamação ou lesão progrida por meses, ou até anos, enquanto o pet mantém uma rotina aparentemente normal. 

Pet Med - Quais são as principais causas de doenças hepáticas em cães e gatos?

Rubia Carolina Sella - As causas variam bastante entre as espécies. Em cães, observamos frequentemente hepatites crônicas, lesões induzidas por medicamentos, infecções, como a leptospirose, e tumores. Já nos gatos, sobressaem-se a lipidose hepática, a colangite, que é a inflamação das vias biliares, e infecções virais, bacterianas ou parasitárias.

Quanto aos fatores de risco evitáveis, destacam-se: a obesidade, o jejum prolongado, especialmente em felinos, a ingestão acidental de plantas e substâncias tóxicas, a administração de medicações sem orientação veterinária e a falta de vacinação preventiva. 

 

Pet Med - Existem fatores de risco que os familiares responsáveis podem evitar?

Rubia Carolina Sella - Os sinais iniciais costumam ser genéricos e fáceis de passar despercebidos. Os familiares devem ligar o alerta se notar perda ou diminuição do apetite, emagrecimento, prostração, desânimo ou menor disposição para brincar e passear, vômitos ocasionais, episódios de diarreia e aumento na ingestão de água e no volume de xixi (polidipsia e poliúria).

À medida que a doença avança, surgem sinais mais clássicos, como a icterícia, que é o amarelamento dos olhos, gengivas e pele, aumento do volume abdominal por acúmulo de líquido (ascite) e até alterações neurológicas, como desorientação ou o hábito de andar em círculos. 

Pet Med - Além dos sinais mais conhecidos, existem alterações discretas de comportamento ou de rotina que também merecem atenção dos familiares?

Rubia Carolina Sella - Sim, e estes costumam ser os detalhes mais valiosos captados por tutores atentos. Quando o fígado perde a capacidade de metabolizar as toxinas do próprio organismo, como a amônia gerada na digestão das proteínas, essas substâncias atingem o sistema nervoso, causando um quadro chamado encefalopatia hepática. Isso pode se manifestar de forma muito sutil no início:

           O pet que fica visivelmente "aéreo", encarando a parede ou cantos da casa;

           Mudanças repentinas de humor ou agressividade incomum;

           Piora da prostração ou salivação excessiva (sialorreia, muito comum em gatos) logo após as refeições;

           Alteração no ciclo do sono, quando o animal troca o dia pela noite.

Pet Med - Como é realizado o diagnóstico das doenças hepáticas?

Rubia Carolina Sella - O diagnóstico é feito por meio da associação de diversos exames e pode ser desafiador. Iniciamos com avaliações laboratoriais de sangue para checar marcadores de lesão e de função hepática. Paralelamente, a ultrassonografia abdominal é fundamental para avaliar o tamanho e a estrutura do fígado e das vias biliares.

Em alguns pacientes, principalmente nos quadros crônicos, são necessários exames mais avançados, como a citologia ou a biópsia hepática, para chegarmos ao diagnóstico definitivo. 

 

Pet Med - Os exames preventivos de rotina conseguem identificar alterações hepáticas antes do aparecimento dos sintomas? Com que frequência eles devem ser realizados?

Rubia Carolina Sella - Com certeza! O check-up preventivo é a nossa principal ferramenta para detectar precocemente as doenças hepáticas antes que elas se manifestem. Por meio de exames de sangue e ultrassonografia de rotina, conseguimos identificar elevações enzimáticas no início de um processo inflamatório crônico, muitas vezes antes de o animal demonstrar qualquer mal-estar.

           Animais jovens e adultos saudáveis: A recomendação é o check-up anual.

           Animais idosos, com diagnósticos prévios ou em uso de medicações contínuas: O acompanhamento deve ser individualizado, podendo ser trimestral, semestral ou conforme a orientação do médico veterinário.

 

Pet Med - A alimentação influencia diretamente a saúde do fígado? Quais hábitos nutricionais ajudam na prevenção dessas doenças?

Rubia Carolina Sella - Influencia imensamente! Para prevenir, o primeiro passo é manter o pet no peso corporal ideal por meio de uma alimentação de alta qualidade e em quantidade adequada, evitando o sobrepeso e a obesidade, que levam ao acúmulo inadequado de gordura nas células hepáticas (esteatose).

Caso o familiar opte pela Alimentação Natural (AN) ou caseira, ela deve obrigatoriamente ser formulada e acompanhada de perto por um médico veterinário nutricionista, garantindo uma dieta balanceada, segura e livre de deficiências ou toxinas.

 

Pet Med - Medicamentos, plantas tóxicas ou produtos de uso doméstico podem causar lesões hepáticas? Quais cuidados os familiares devem ter dentro de casa?

Rubia Carolina Sella - Sim, e a exposição a essas substâncias figura entre as principais causas de hepatite aguda toxigênica na rotina clínica. Os principais cuidados no ambiente doméstico envolvem:

           Evitar rigorosamente a automedicação: Remédios humanos extremamente comuns, como o paracetamol, além de anti-inflamatórios e certos antibióticos sem prescrição, são altamente tóxicos e podem levar à falência hepática rápida e fatal — especialmente em gatos, que possuem menor capacidade metabólica para metabolizar essas substâncias.

 

           Atenção às plantas ornamentais: Espécies muito comuns em jardins e residências, como a Cyca revoluta (Sagu-de-jardim), a Espada-de-São-Jorge e a Comigo-ninguém-pode, contêm toxinas que podem causar graves lesões hepáticas e até o óbito do animal. A recomendação é pesquisar a toxicidade das plantas antes de adquiri-las e checar as espécies já presentes em casa.

 

           Armazenamento seguro de químicos: Desinfetantes concentrados, produtos de limpeza, pesticidas e venenos (como raticidas) devem ser mantidos estritamente fora do alcance dos pets, em armários altos ou trancados.

 

Pet Med - Qual é a principal orientação que você deixa aos familiares para aumentar as chances de um diagnóstico precoce e preservar a saúde do fígado dos seus animais?

Rubia Carolina Sella - A minha principal mensagem é: não espere o seu pet demonstrar que está muito doente para agir. Fique atento à rotina, ao apetite e ao comportamento do seu animal. Ao menor sinal de alteração, consulte um médico veterinário. Mantenha as consultas preventivas e os exames de rotina em dia. O diagnóstico precoce é, sem dúvidas, a melhor ferramenta para garantir que o fígado se recupere e que o seu pet viva muitos anos com excelente qualidade de vida!

 

Além disso, gostaria de reforçar a importância de nunca medicar o pet por conta própria, nem mesmo com suplementos "naturais" ou "hepatoprotetores" sem orientação médica. Embora existam ótimos nutracêuticos para o fígado, o uso inadequado ou a demora para buscar a causa primária da doença pode atrasar o tratamento correto e agravar o quadro.

É muito importante, também, ressaltar para os leitores que o diagnóstico de uma alteração nas enzimas hepáticas no exame de sangue não é um veredito de falência do fígado, tampouco uma doença por si só. A elevação de enzimas é apenas um sinal de alerta de que o fígado está sofrendo alguma agressão, que pode ser primária dele ou secundária a um problema em outro local do corpo (como no intestino, pâncreas ou sistema endócrino). Por isso, ao notar alterações nos exames, a investigação com um especialista em gastroenterologia e hepatologia veterinária é o caminho mais seguro para identificar e tratar a causa exata do problema.

 

 

Por Pauline Machado, jornalista e médica veterinária, pós-graduada em Clínica Médica de Cães e Gatos e mestranda em Ciências Veterinárias na área de Saúde Única pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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